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 artigos de Rui Tavares

Dez anos, dizia Paulo de Carvalho, é muito tempo. Por outro lado, quarenta e um é capaz de ser pouco tempo. Pelo menos tendo em conta dois acontecimentos que se deram um pouco antes, ou no próprio dia, das comemorações do 41.º aniversário do 25 de Abril.

O primeiro foi a famosa proposta de lei que-não-chegou-a-ser sobre a cobertura das campanhas eleitorais. Em princípio não se justificaria gastar mais tempo com ela, uma vez que foi divulgada num dia, ridicularizada no segundo, e enterrada no terceiro.

Convém não esquecer, porém, que aquela proposta não representa só o falhanço de alguns poucos membros da elite política. Ela chegou depois de um processo que representa o falhanço de toda a nossa elite — política, institucional, mas também jornalística. Só isso pode descrever o que se passa num país que já teve duas eleições sem cobertura e sem debates, e que se arrisca a ter uma terceira eleição sem cobertura e sem debates, sem que se encontre uma solução partilhada para um problema simples.

Convém não esquecer, também, que não teria sido impossível combinar relevância e critério jornalístico com a lei que existe — só que nunca foi tentado. É assim que nos arriscamos agora a fazer aquela transição tipicamente portuguesa de uma lei igualitária que nunca foi cumprida para uma nova lei descaradamente inigualitária que beneficiaria só os interesses instalados.

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O segundo facto não gerou qualquer escândalo — e é nessa medida que esclarece muito bem o primeiro.
No próprio dia 25 de Abril, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas convocaram os jornalistas para um hotel e anunciaram que iriam defender perante os “órgãos nacionais” dos seus partidos a formação de uma coligação pré-eleitoral entre eles.

A referência aos “órgãos nacionais” foi de um requinte notável. Como era notório, ninguém se preocupou com o que pensam os militantes dos ditos partidos. Na crença comum, estes servem apenas para validar as decisões dos líderes e esperar para ver em que lugar aparecem nas listas. Não passou pela cabeça dos dois líderes partidários — Pedro Passos Coelho e Paulo Portas — convocar cada um dos seus partidos para uma reflexão real sobre os anos de governação e uma ponderação sobre quais seriam as vantagens ou desvantagens de uma coligação. Um processo desses deveria ser a rotina fundamental da vida partidária. Mas em Portugal os partidos da direita coligam-se com a mesma facilidade com que os partidos de esquerda não se coligam: depende do que dá jeito à direção do partido.

E isto acontece, note-se, com os dois partidos que nunca deixaram de avaliar trimestralmente a sua prestação — com a troika, é claro. Afinal, tratava-se de senhores estrangeiros. Os portugueses, mesmo quando são militantes do partido, não precisam dessas finezas.

Nenhum jornalista ou comentador, que eu desse conta, questionou este facto. O que é revelador: o escândalo do dia anterior foi apenas a ponta do iceberg. A 25 de Abril, desgraçadamente, prosseguiu a nossa cultura de fechamento político — e essa é que é determinante.

Por isso, ao contrário do que dizem, o Presidente não se enganou quando no seu discurso de 25 de Abril nos chamou “uma República de cidadões”. Ainda falta um pouco para que as nossas elites nos promovam a cidadãos.

Rui Tavares

Artigo publicado no jornal Público a 29/04/2015