Jorge Wemans

A preocupação número um dos neoliberais sempre foi assegurar a rendibilidade do capital. O objetivo dos turboliberais é assegurá-la a todo o custo em tempos de altas rendibilidades impossíveis, pelo menos no quadro daquilo a que nos habituámos chamar civilização.

A coincidência de um período de baixo crescimento económico com o explodir das consequências da desregulamentação bancária trouxe o inevitável: fraca taxa de remuneração do capital.

Para atingir de novo altas taxas de remuneração, os turboliberais não têm dúvidas que a receita típica se mostrou insuficiente: baixar os encargos com os salários, aumentar os apoios públicos ao investimento e reduzir as contribuições fiscais e sociais das empresas – tudo isso lhes interessa, mas não lhes basta, são venais, pedem mais.

Assaltam o Estado, destroem a capacidade deste prover bens e serviços sociais, reduzem a despesa pública com os cidadãos. Põe-no a financiar as empresas e os grupos financeiros, sobretudo estes: sobre a forma de juros da dívida, de apoio à recapitalização, ou como resgate na iminência da sua falência “sistemicamente incomportável”, os fundos extorquidos às famílias e aos consumidores vão parar às instituições financeiras.

Agora é tempo de desdizer as antigas teorias neoliberais. Agora é indicado aumentar as receitas fiscais, pois está garantido que estes fundos públicos não serão desperdiçados em funções sociais ou a favor da coesão social! Num passo de magia, a carga fiscal passou de maldita viciosa a benigna virtuosa.

O único problema que os turboliberais enfrentam é a democracia.

Nenhum povo no seu inteiro juízo aceitaria um tal programa de governo… Mas não é preciso pagar a agitadores e a provocadores profissionais para riscar do presente construções sociais e políticas de décadas.

Basta-lhes o Euro. Essa moeda fantástica, completamente ao seu dispor, sem um banco central que a defenda, gerida por um conjunto de ratos aperaltados invejosos da prosperidade de qualquer um dos outros, preferindo roer o navio, condenando-o ao naufrágio, do que fazer subir uma vela no turno alheio. O Euro transformou-se no instrumento ideal que nem o mais sofisticado dos turboliberais seria capaz de conceber: permite-lhes derrubar governos, impor os seus programas económicos e comerem tudo sem deixarem nada.

Em 2007 o Euro deixou de ser um meio de construir a Europa. Foi, durante um breve momento, a bandeira da ideologia neoliberal. Hoje não é mais do que a moeda da ditadura dos turboliberais.

Jorge Wemans

Jornalista

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