André Barata

Ninguém sabe o que vem aí. Mas sobre o que sucedeu ontem sabemos que o medo não venceu. Esta Europa que se achou no direito de atemorizar para obter um resultado no referendo grego, não só não convenceu como foi derrrotada pelo voto dos que sofrem a austeridade. E não foi derrotada pela força, a não ser pela única força que reconhecemos nesta ainda nossa Europa como legítima: a da democracia.

É tempo de enfrentar a realidade. Está demonstrado que a austeridade é um erro, económica e socialmente. No caso da Grécia, destruiu emprego, reduziu o PIB, magnificou a própria dívida que se propunha conter. Um povo levado a um beco sem saída exprimiu na forma de voto que não podia mais. E que nem sequer fazia sentido levar mais longe os sacrifícios. Uma narrativa errada não pode dobrar a realidade a ponto de esta lhe dar razão. Pior, nem sequer há significativas divergências quanto ao fracasso da austeridade. Basta recordar declarações consternadas de Juncker, de Draghi, do próprio FMI sobre os malefícios da austeridade.  Esta é imposta porque o seu sucesso é outro: subjuga países a dívida, transfere-lhes a soberania para esta e justifica, por fim, uma agenda de desmantelamento dos pilares do modelo de desenvolvimento que, até há bem pouco tempo, reputávamos de europeu.

É preciso que as instituições europeias saibam interpretar o voto grego. Desde logo, que não cometam o disparate de assumir que os gregos não sabiam medir as consequências do seu “não”. Um povo reunido democraticamente merece muito respeito. As ameaças foram ouvidas e tidas em conta, mas os gregos recusaram, com toda a legitimidade democrática, uma proposta de continuação da austeridade subscrita pelo FMI, a Comissão Europeia e o BCE. E fizeram-no ainda com toda a legitimidade da racionalidade. Nenhuma razão social ou económica justifica a condenação de um país e de um povo à reiteração do ciclo infernal que foi proposta pela troika.

E é também preciso que todos entendam que quem procura um compromisso não é um traidor à sua posição de partida. A Grécia aceitará condições para que um resgate lhe seja proporcionado, o que implica cedências. Mas não cederem os credores o suficiente para que a cedência grega faça sentido, não é uma resposta que nós europeus possamos aceitar no quadro de uma União Europeia.

O referendo foi grego, mas o debate sobre o “não” grego deve passar a ser um debate europeu. E um debate muito sério sobre se continuamos a querer ser mais do que apenas uma geografia comum. É tempo de termos um espaço público europeu genuíno capaz de fazer este debate.

A Alemanha já se julgou, a respeito do espírito europeu, a herdeira da Grécia. Mas, uma vez mais, tudo está por demonstrar.

E em Portugal, cabe-nos a todos nós, que sabemos que a continuação da austeridade é uma “no exit”, não deixarmos – tanto quanto os gregos foram categóricos – que o Governo português subscreva alguma modalidade de Grexit.

André Barata

Filósofo

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