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 artigos de São José Lapa

Excertos da destruição da classe média em capítulos

Capítulo 1:

Querer trabalhar e não o conseguir, ou melhor, querer trabalhar com remuneração e direitos e não o conseguir. Tentaremos perceber o porquê desta situação nos próximos comentários.

Tomemos como exemplo A e B:
A tem 38 anos, curso superior de belas artes. Desde os 18 anos que trabalha, tendo começado ainda durante o tempo em que estudava, como forma de ajudar nas despesas e não sobrecarregar a família. Bom aluno, desde cedo começou a conhecer a precariedade do trabalho através dos famigerados recibos verdes, em serviços de televisão e entretenimento. Nas empresas por onde passou usavam o termo colaborador ou o mais estrangeirado free-lancer, que é uma forma suave de dizer descartável. Após ter realizado uma primeira exposição individual num espaço cooperativo, nunca utilizou os conhecimentos e muito menos os lobbies para no mundo dos marchand de arte poder vender.

B tem 62 anos, formação em arquitetura, música e artes performativas. Foi distinguido com uma condecoração de Grande Oficial de Mérito, pelo Presidente da República. Criador de empresas artísticas, com contributos conhecidos e reconhecidos, há mais de 30 anos. Empresário, precário, soçobrou ao boom das grandes produtoras dos anos 90.
A e B estão desempregados e não têm nenhuns direitos assegurados, perdem muitas horas e energia a apresentar projetos a concursos, sem resultados desse esforço sobre-humano. A autoestima desgasta-se deixando marcas emocionais.

À velocidade a que a informação nos chega: a morte de milhares de migrantes que fogem da fome e da guerra em África; os cataclismos climatéricos; as mortes nos conflitos armados; falar em direitos do trabalho pode parecer ausência de compaixão. Mas são todas tragédias com a mesma causa: o aumento profundo e alarmante das desigualdades sociais.

São José Lapa

Atriz/Encenadora