André Nóvoa

Portugal viveu, porventura, a mais longa ditadura desde que a história virou História. Foram 48 longos anos. 48 anos de brandos costumes, de não participação cívica, de letargia cidadã. Ainda hoje sentimos, por esse Portugal fora, muito desse Portugal. O sono foi demasiado profundo.

Felizmente, veio Abril. E com Abril tudo mudou. Abril trouxe a liberdade, trouxe  esperança, trouxe transcendência e, com elas, os maiores consensos que alguma vez foram construídos na sociedade Portuguesa, a começar pela Constituição da República, sufragada por mais de 90% da população. 90%.

No rescaldo da Revolução dos Cravos, proteger os partidos assumiu-se também como um consenso imperativo. O medo de recaídas era demasiado. Blindámos os partidos. Demos-lhe estruturas e redes sólidas. Impermeáveis. Pouco plásticas. Era o que era preciso fazer. Era o que fazia sentido fazer.

40 anos depois de Abril, os modelos partidários que temos esgotaram-se. Tornaram-se anacrónicos. Já não servem. Há um claro deficit de confiança entre aqueles que elegem (ou que podem eleger) e aqueles que são eleitos. Taxas de 50% de abstenção sufocam a democracia Portuguesa.

E é por isso que precisamos de nos reinventar. De fazer diferente. De tentar outras maneiras. Seja através da integração da participação cívica no sistema eleitoral, da criação de pontes entre partidos e movimentos sociais ou da reinvenção dos métodos de eleição dos nossos representantes.

O que aconteceu esta semana foi algo histórico. 410 cidadãos, a maior parte deles totalmente independentes, tornaram-se candidatos a deputados. Mesmo sem uma sólida base de apoio popular, mesmo sem uma estrutura montada pelo país, mesmo sem o cavalo mediático de outros, foi possível. Claro que há erros. Claro que houve candidatos que passaram e se calhar não deviam. Claro que há falhas. Mas ter a ousadia de tentar já é uma vitória. Não podemos ter a arrogância de pensar que vamos mudar tudo e todos. Mas temos o dever de ir tentando. Pouco a pouco. Lançando sementes. Esta semana, Portugal mudou um bocadinho.

André Nóvoa

Geógrafo

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