Manuela Silva

“O fosso entre ricos e pobres continua a aumentar. O crescimento, quando existe, tem beneficiado de forma desproporcionada os grupos de rendimentos mais elevados, deixando para trás as famílias de rendimentos mais baixos. Esta desigualdade de rendimentos suscita não só preocupações sociais e políticas, como económicas: a desigualdade de rendimentos tende a reduzir o crescimento do PIB, efeito que se deve à distância crescente entre os 40% mais pobres e o resto da sociedade. As pessoas com baixos rendimentos têm sido assim impedidas de concretizar o seu capital humano, o que é mau para a sociedade como um todo”.

É assim que abre um relatório publicado há dias pela OCDE, In It Together: Why Less Inequality Benefits All.

Falemos das vidas concretas. Da saúde, por exemplo.

As pessoas pobres têm mais doença. É bem conhecido que quanto mais elevada a posição social, melhor é a saúde.

Não é apenas o rendimento individual que tem impacto na saúde, mas também a distribuição de rendimentos. Sociedades mais igualitárias têm melhores resultados em saúde: a investigação mostra que a mortalidade prematura, a obesidade, a toxicodependência e o sofrimento mental são mais frequentes nos cidadãos de países mais desiguais. Isto verifica-se mesmo nos seus cidadãos mais ricos, com pior saúde do que os seus congéneres dos países mais igualitários. Como se sociedades mais desiguais produzissem indivíduos mais doentes.

Os mecanismos que produzem estes resultados são vários. A desigualdade corrói a auto-estima: o sentimento de nos sentirmos inferiores ou desrespeitados, mais provável numa sociedade desigual, leva a alterações metabólicas e endócrinas que aumentam o risco de doença. A desigualdade corrói a coesão social: em sociedades mais desiguais a confiança mútua, a participação cívica e o capital social são mais frágeis, o que tem consequências diretas para a saúde. A desigualdade corrói a qualidade média dos serviços de saúde: nas sociedades mais desiguais é menor o apoio à provisão pública de serviços de saúde, com serviços públicos de baixa qualidade e serviços privados para quem os pode pagar.

Portugal é um dos países mais desiguais da Europa. Para sermos uma sociedade com futuro precisamos urgentemente de inverter esta situação. Não apenas para melhorar o PIB e números abstratos, mas porque uma população saudável é a base de um país sustentável. E porque é responsabilidade de todos nós garantir que a desigualdade económica não impede ninguém de concretizar o seu potencial.

Manuela Silva

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