José Azevedo

Ao final de um ensolarado dia de outono um bando gigantesco de estorninhos voa em sincronia, desenhando no céu uma coreografia assombrosa. O bando serpenteia como se fosse um único organismo, para logo a seguir se dividir em grupos cujas trajetórias se cruzam sem se misturar. O movimento das aves forma um bailado tridimensional cujo apelo estético cativou duas jovens que o filmaram e os milhares de pessoas que o viram no youtube.

Não há, obviamente, nenhum coreógrafo por detrás deste bailado. Cada ave expressa a sua vontade de voar, e procura manter-se alinhada com as aves que voam no seu raio de visão mais imediato. Estas regras simples bastam para explicar a complexidade dos padrões resultantes, como o demonstram simulações informáticas simples.

Nos mercados financeiros também os valores das ações sobem e descem, as bolhas especulativas expandem-se e rebentam, para logo surgirem outras a expandirem-se noutras direções. Os dólares cruzam fronteiras em nanosegundos, as cotações de euros e ienes seguem juntas para logo se separarem, volteando entre Paris, Londres e Nova Iorque.

Também nestes mercados muitos vêm coreógrafos: o BCE, a Reserva Federal, o Goldman Sachs, os Illuminati. Porém este é apenas outro exemplo de um padrão complexo gerado pela aplicação de uma regra simples, neste caso a maximização do lucro.

Embora pareça, os estorninhos não violam nenhuma lei natural: de facto usam a leis da entropia e a aerodinâmica para ultrapassar os constrangimentos que a lei da gravidade impõe à maioria dos seres vivos. Estas aves não têm nenhuma perceção dos efeitos estéticos das suas atividades- é preciso alguma distância e alguma sensibilidade para perceber e valorizar a beleza da dança de milhares de estorninhos ao pôr-do-sol.

Da mesma forma, os mercados financeiros respeitam todas as leis a que estão sujeitos. E da mesma forma operam sem nenhuma preocupação com os efeitos das suas ações no mundo exterior. Mas um módico de distanciamento e de sensibilidade mostra que esses efeitos são bastante menos estéticos: aquecimento global, extinção das espécies, fome, guerras civis, catástrofes ambientais. Ora, se os estorninhos seguem regras instintivas moldadas pela evolução ao longo de milhões de anos e leis físicas imutáveis, as regras e leis dos mercados financeiros são obra humana. Basta algum distanciamento e sensibilidade para as alterar.

José Azevedo

Biólogo e docente universitário

josemnazevedo@gmail.com

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