Isabel Prata

Conheço bem as mulheres do Vale do Ave. Que trabalharam na fábrica, 30 anos, todos os dias, oito horas por dia. Oito horas do ruído ensurdecedor dos teares, as mãos estragadas pelos tintos ou, ainda pior, por acidentes que, não poucas vezes, as desfiguraram. Conheço as mulheres do Vale do Ave que ao longo de 30 anos, oito horas por dia do barulho dos teares, nunca subiram de posto, nunca ganharam mais do que o ordenado mínimo. Porque são mulheres e porque, sendo mulheres, não passou pela cabeça de ninguém que pudessem ir além da antiga quarta-classe. E quem é mulher, e mulher iletrada, não tem direito ao sonho, não tem sequer direito ao sonho de um dia poder levar para casa, no fim do mês, um salário um bocadinho melhor.

Hoje as mulheres do Vale do Ave, que trabalharam 30 anos na fábrica, estão desempregadas, a fábrica faliu, têm 50 anos e ninguém as quer para trabalhar. Não raro, também o marido e o filho, e a nora, trabalhavam na mesma fábrica e hoje famílias inteiras estão desempregadas. E ainda lhes dizem que assim é porque viveram acima das suas possibilidades.

E é porque existem as mulheres do Vale do Ave, ali, ou noutro qualquer ponto de Portugal, que aos 50 anos não têm direito a sonhos, nem a emprego, que é urgente relançar a economia nacional mas, tão urgente como criar mais emprego, é dar qualificações a todas estas mulheres que nunca puderam sonhar. É urgente trazer estes adultos para a escola.

Isabel Prata¨*

*vivo em Coimbra, mas a minha família materna é originária e vive em Guimarães

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