Carlos Teixeira

Há exactamente 10 anos atrás, em 2005, foi publicado um dos relatórios mais completos de sempre sobre o estado global dos ecossistemas da Terra. O relatório, intitulado “Avaliação do Milénio de Ecossistemas” respondeu a um apelo lançado pelo então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, em 2000, durante o seu discurso à Assembleia-Geral “Nós, os Povos: O papel das Nações Unidas no século XXI”, apelo esse que foi depois apoiado por muitos Estados-membro. Para a sua elaboração foram conduzidos estudos realizados por centenas de investigadores de todo o mundo e coordenados por um painel que incluiu representantes de instituições internacionais, de governos, de empresas, de organizações não-governamentais e de povos indígenas. O grande objectivo destes estudos consistia na avaliação das consequências decorrentes das alterações nos ecossistemas para o bem-estar humano. Outro objectivo consistia no estabelecimento de uma base científica para as acções a realizar no sentido da relação sustentável entre os ecossistemas e a civilização humana. Portugal foi dos poucos países a ter uma Avaliação do Milénio dedicada exclusivamente ao respectivo território.

Esta Avaliação incluía à escala global quatro cenários socioecológicos que descreviam quatro futuros plausíveis para o século XXI e organizavam-se em torno de eixos de incertezas, atitudes da sociedade em relação ao ambiente e do grau de conectividades global da sociedade. O primeiro – “Orquestração Global” – descrevia um mundo com ênfase em políticas globais de desenvolvimento socioeconómico. O segundo – “ Ordem a partir da Força” – descrevia um mundo focado em questões de segurança internacional, mercados regionais, com pouca atenção aos bens públicos, apenas reactivo às questões ambientais e no qual o reforço das fronteiras emergia como principal preocupação. O terceiro – “Mosaico Adaptativo” – descrevia um mundo em que a gestão local e regional dos ecossistemas dominaria. Finalmente, o quarto – “Jardim Tecnológico” – descrevia um mundo em que a gestão global dos ecossistemas por via da tecnologia maximizava os serviços providenciados por estes.

Para além de nos alertar para o declínio acelerado da diversidade biológica à escala global e para as ameaças que os ecossistemas enfrentam, da destruição directa por pressão urbana ou agricultura intensiva às alterações climáticas, a Avaliação também concluiu que o cenário da Ordem a partir da Força seria o que apresentaria problemas ambientais mais sérios, incluindo maior taxa de perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas, associados a desempenhos económicos fracos.

Há medida que o século vai avançando, podemos procurar indícios que nos indiquem para que cenário está a humanidade a caminhar. Neste contexto é inevitável pensar nos muros que se foram erguendo em vários pontos do globo, da fronteira entre os EUA e o México, a Israel ou a Melilla. Também o recente episódio de aumento das tentativas trágicas de migração para a Europa através do Mediterrâneo, ou para a Malásia e Indonésia, no Índico, e respectivas respostas securitárias de que é exemplo o alargamento da Operação Tritão que o Conselho Europeu recentemente aprovou, nos fazem recordar o cenário da “Ordem a partir da Força” e as consequências socioecológicas que daí advêm.

A conclusão é inevitável: independentemente da cegueira que outros Estados, maiores e mais poderosos possam continuar a exibir, Portugal deve assumir uma postura consciente em relação a tudo isto. Consciente dos sinais que as decisões recentes representam no quadro de cenários já antes pensados e avaliados. Consciente da necessidade em falar não apenas pelos que hoje sofrem com a concretização dos piores cenários mas também pelos que ainda estão por nascer.

O futuro não pode ser feito de ordem a partir da força. É tempo de avançar.

 

22/05/2015, Lisboa

Carlos MGL Teixeira

Biólogo

carlosmglteixeirapt@gmail.com

 

Relatório Global da “Avaliação do Milénio de Ecossistemas”: http://www.millenniumassessment.org/

Relatório Nacional: http://theoeco.fc.ul.pt/publications/Pereira_2009_Ecossistemas.pdf

 

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