Nuno David

Disse um dia Nietzsche que só acreditaria num Deus que soubesse dançar. Não me compete a mim, neste manifesto, duvidar da existência de Deus. Se os homens ou os Deuses de espírito livre são aqueles que sabem dançar, então qualquer um poderá saber dançar. A questão não se coloca no plano do divino; é terrena e fundamentalmente política. O que se afigura perturbador é a possibilidade de nem todos os homens saberem dançar. Os Deuses sabê-lo-ão certamente. Quanto aos homens, haverá os que o fazem de forma virtuosa, os pés-de-chumbo, os desajeitados, e aqueles que, bailando na vida, hesitam em seguir um ritmo ou arriscar um passo, ainda que dançando sem o saberem. Sejamos realistas: é duvidoso que algum homem não saiba dançar. Ainda assim, será prudente garantir que todos os que nos governam saibam dançar. Não acreditaria num político que não soubesse dançar. Será possível que alguns dos nossos políticos, eleitos representantes do povo e da nação, não saibam dançar?

A ideia que proponho não é perigosa. Defendo que os detentores de cargos políticos sejam obrigados a dançar e a prestar provas periódicas de dança. A ideia que proponho também não é estranha. Conhecem-se deputados e governantes que cantam e dançam em animados comícios, tendo em vista aumentar a sua probabilidade de eleição. Pena será se não dançarem no efetivo exercício das suas funções. Sabemos como os nossos políticos falam sobre o País, sabemos como eles escrevem. O povo deve saber como eles dançam. A dança, no exercício dos cargos públicos, deve ser obrigatória, e os seus titulares devem prestar regularmente provas sobre a forma como dançam.

O presente e o futuro dos cidadãos, as grandes decisões coletivas que influenciam a nossa vida, são hoje delegadas em inúmeros responsáveis políticos. É pois razoável exigir que os políticos sejam aqueles que saibam dançar e amar a vida, sentindo a música que os eleitores querem que dance. O mais sábio líder político será aquele que busca a capacidade de dançar, de ser livre, e de mostrar que tem vontade de viver. Num ambiente político onde a orquestra toca incessantemente a música da austeridade, onde abunda a submissão acrítica às ideias do chefe, obedecendo a interesses obscuros, onde proliferam inúmeros protocolos repetitivos, de que outra forma pode um político atuar para evidenciar que não renuncia à vida e à vontade dos cidadãos que o elegeram?

Nuno David

Professor Universitário

(adaptado de texto da minha autoria originalmente publicado no livro “Ideias Perigosas para Grandes Decisões”, Edições Tinta da China)

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