Miguel Vale de Almeida

Na “voz da rua” que é o Facebook tropeço muitas vezes numa queixa por parte de pessoas da esquerda: “porque é que em Portugal não há um Syriza?” Ou, talvez mais relevante ainda, “porque é que em Portugal não há um Podemos?” A queixa é uma variação dessa estranha autopunição que carateriza muito da cultura portuguesa – e que esconde um excesso de autoestima por parte de quem se queixa… Mas o que me interessa é a questão política – ou a falta dela. Ninguém parece colocar o que para mim seriam as perguntas verdadeiramente críticas e, digamos, “científicas”: será que faria sentido haver tais movimentos em Portugal? E seriam eles desejáveis – para o alargamento do campo progressista e de aprofundamento da democracia? Tendo a responder com um duplo não, apesar da simpatia que eles me possam inspirar, considerando os contextos nacionais em que aconteceram. Poderá ser que não aconteceram, entre nós, em parte pela tomada do aparelho de estado, das instituições e do espaço mediático pelos partidos-estado. Poderá ser pelo monopólio destes na comunicação social. Poderá ser pelas alianças entre grupos de interesse, económicos e políticos que asfixiam muitas energias. Sim. Mas porque não colocar também a hipótese de que as pessoas ainda acreditam em transformações dentro do sistema (uso a expressão à falta de melhor, mas acho que se percebe o que quero dizer) e da sua linguagem – numa sociedade mais coesa do que a espanhola e com um estado mais aglutinador e numa sociedade inventada há muito mais tempo do que a grega? Começar pelo bater de asas da borboleta, em vez de pelas tempestades em Pequim? É uma hipótese, não uma resposta. Mas uma hipótese para des-simplificar as respostas. E há muita gente – na esquerda do PS, nos desiludidos do Bloco, no Livre-Tempo de Avançar, em muitos movimentos sociais, e “lá em casa” – a pensar o mesmo.

Miguel Vale de Almeida

Antropólogo e Professor Universitário

www.miguelvaledealmeida.net

Partilhe este post