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 artigos de José Azevedo

O mergulho no Castelete tinha começado há pouco quando o céu escureceu. Um enorme cardume de chicharros tinha-se colocado por cima de nós, bloqueando o sol. A razão para esta bola de peixe ter procurado refúgio junto de três bípedes borbulhantes e desajeitados? Um grupo de bicudas, que rodeava ameaçadoramente o cardume, espreitando uma oportunidade de atacar.

Os peixes que vivem em cardume têm uma reação estereotipada quando são atacados por um predador: os animais aproximam-se e começam a nadar em círculos, formando uma bola. No oceano aberto não há para onde fugir, mas há alguma segurança nos números. É difícil para um predador seguir uma presa individual e, quando investe, o cardume abre um espaço, os animais movendo-se como moléculas num líquido, a coordenação dos movimentos sincronizada pelas vibrações dos animais em redor.

Compensa pois fazer o que todos fazem, ficar o mais longe possível da periferia, não se afastar, não se distinguir dos outros em nada.

E no entanto vi nesse dia algo que contradiz toda esta lógica: “dedos” formados por dezenas de peixes saíam do cardume em direção às bicudas, que recuavam. Sim, leram bem: da bola de peixes pequenos e amedrontados saía um prolongamento vivo que acelerava ameaçadoramente em direção aos predadores, quando estes se aproximavam mais do cardume. Era um movimento rápido, os pequenos animais diluindo-se logo a seguir na multidão.

Na frente desse prolongamento ia um único animal. Talvez todos os outros apenas seguissem o instinto de cardume. Mas não o da frente, que avançava claramente para o que podia ser a morte certa. Seria um peixe qualquer? Ou será que afinal, num cardume de peixes todos iguais, há peixes mais iguais que outros?

José Azevedo

Biólogo e Docente Universitário

https://www.linkedin.com/in/josemnazevedo

https://scholar.google.pt/citations?user=vyEBNcUAAAAJ&hl=pt-PT