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 artigos de Jorge Wemans

Passam esta semana quatro anos sobre a assinatura, a 17 de maio de 2011,do memorando de entendimento com a Troika. Colocar o défice orçamental dentro dos objetivos do tratado orçamental, reduzir a dívida pública e aumentar a competitividade eram os objetivos escritos do memorando.

Quatro anos depois, os resultados não alcançados ao nível dos dois primeiros objetivos mostram que eram muito menos importantes do que os objetivos não escritos: reduzir brutalmente o custo do trabalho em Portugal; transferir a dívida pública (e bancária) portuguesa dos bancos com sede fora de Portugal para as três instituições que assinaram o memorando.

Assim se explica por que razão não há bancos estrangeiros a negociar com a Grécia do Syriza, há apenas a tecnoestrutura europeia. A dívida grega, como as outras, passou a ser uma questão que diz apenas respeito aos Estados.

Em Portugal continuamos a viver submetidos à dívida, não só porque a pública cresceu, mas sobretudo porque ela disparou em todos os campos: as dívidas à banca com pagamentos em atraso subiram para 20 mil milhões de euros, as dívidas ao fisco e à segurança social já ultrapassam os 28 mil milhões de euros. Consequências? As penhoras duplicaram entre 2012 e 2014. No ano passado superaram os dois mil milhões! Sempre a mesma lógica: nenhuma intervenção para resolver os problemas que deram origem à dívida; enorme investimento na caça ao pagamento da dívida, mesmo que esta resulte apenas de juros acumulados a partir de uma inicial dívida minimal.

Mas o que interessa, do ponto de vista de quem nos desgoverna, é que o trabalho está barato, muito barato mesmo. Não é fácil ser empresário em Portugal tendo à sua disposição mais de 80 mil jovens altamente qualificados (com licenciatura, mestrado, ou doutoramento) que ganham menos de 600 euros/mês? Ou saber que há, com idade entre os 15 e os 24 anos, 135 mil desempregados (35% do total) prontos a serem ainda mais mal pagos, ou não custarem quase nada à empresa, pois o seu salário pode ser pago pelo Estado?

Quatro anos depois da assinatura do memorando, a desigualdade em Portugal atingiu níveis que nos fazem recuar aos tempos da Ditadura. Muitos são os indicadores que o mostram. Talvez este seja dos que melhor espelha o que se passou: nestes quatro anos o rendimento familiar dos 10% mais ricos retrocedeu 8%, mas o rendimento dos 10% mais pobres caiu 24%!

Jorge Wemans

Jornalista

jorgewemans@gmail.com