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 artigos de André Barata

Pelo segundo trimestre consecutivo, a população desempregada aumentou e a população empregada diminuiu. Ainda que a sazonalidade do emprego ligado ao turismo possa explicar, em alguma medida, esta tendência, é muito claro que o desemprego em elevados níveis está para ficar em Portugal. São números da ordem dos 700 mil desempregados, e em que o desemprego jovem (dos 15 aos 34 anos) ultrapassa os 34%. A conclusão é clara: o mercado de emprego no pós-austeridade é, e continuará a ser por muito tempo, uma sombra do mercado do emprego antes da política de austeridade.

Uma nova governação deve parar esta política e empenhar-se na criação de emprego. Mas, ao lado disso, deve mobilizar os meios públicos existentes para a recriação das vidas profissionais das pessoas que tiveram o infortúnio de cair no desemprego.

Por exemplo, uma nova governação repensar o uso dos meios públicos que tem à sua disposição significaria implicar as universidades e as escolas politécnicas, de forma concertada com as tutelas dos assuntos sociais e da economia, em programas especialmente destinados à recapacitação de trabalhadores desempregados. Muitas vezes, pessoas que, fruto de uma longa carreira, se especializaram tanto que o mercado de emprego deixou de ter lugar para elas. Porque um dia as suas profissões deixaram de fazer sentido. Ou então, profissões de desgaste rápido em que é a idade das próprias pessoas que já não faz sentido ali.

As instituições de ensino superior estão especialmente vocacionadas para ajudar a ultrapassar estes bloqueios, sendo perfeitamente capazes de responder ao desafio de moldar novas competências a partir de competências anteriores. Este podia ser um novo programa de “novas oportunidades”, centrado nas universidades e nas escolas politécnicas, não para conferir habilitações a cidadãos, mas restaurar-lhes capacidades.

Contudo, estas mesmas instituições do ensino superior estão bastante bloqueadas pela rigidez cada vez maior dos papeis que a tutela lhes prescreve. Certo é que um ensino superior menos entretido com mil processos de avaliação e mais implicado, mediante políticas integradas com outros meios públicos, em devolver capacidades, projectos e futuro aos trabalhadores desempregados em Portugal presta melhor serviço à sociedade em seu redor.

André Barata

Filósofo