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 artigos de Pedro Abrantes

Os exames, os testes, as fichas voltaram a regular a escola pública. Não apenas os professores e os alunos dedicam uma grande parte do seu tempo de trabalho à preparação e realização de provas descontextualizadas, mas também os seus resultados se tornam decisivos para o futuro de docentes e discentes. Foi revitalizada a reprodução de conteúdos normalizados pela competição e pelo medo. A própria formação cívica foi reduzida a um espaço administrativo, de imposição de condutas e de controlo disciplinar. Trata-se de um sistema que prepara para o conformismo, o medo e o individualismo. Sem surpresas, aumentaram os índices de depressão dos professores e de reprovação dos alunos. Felizmente, há escolas, professores e alunos que continuam a lutar contra este regime, mas é cada vez mais difícil.

Nada disto é explicável por uma necessidade de contração da despesa, até porque esta gigante máquina de controlo tem também custos avultados. Contudo, este sistema reforça a vigilância sobre professores e alunos, atribuindo-lhes toda a responsabilidade pelo êxito ou fracasso individuais, o que legitima a seleção, segregação e exclusão dos menos aptos ou menos conformistas. Além disso, justifica a marginalização de todo o trabalho escolar que sai do perímetro dos exames: a cidadania, o desporto, as artes, a educação especial, o trabalho de projeto e em grupo, etc. Por fim, estimula o mercado, com custos acrescidos para as famílias: os manuais e livros de preparação para os testes; as explicações; os fármacos; as escolas privadas. Tem, portanto, todos os condimentos das políticas “austeritárias”.

Defender uma sociedade mais democrática, inclusiva e desenvolvida implica um sistema educativo em que se formem cidadãos e trabalhadores informados, criativos, confiantes, participativos e solidários. Na verdade, tal mudança é possível. É, acima de tudo, uma questão política. A mudança passa por reduzir uma máquina burocrática, disciplinadora e avaliativa que sufoca, tratando com dignidade os profissionais educativos e os estudantes. Estes precisam de tempo, espaço e apoio para construírem as suas formas de trabalhar. Têm direito a participar nas decisões que dizem respeito ao modo como ensinam e aprendem. Em vez do medo e da competição, as escolas devem ser movidas pela criatividade e a participação. Mas a mudança passa também por reforçar os meios das escolas, articulando-as com os recursos das comunidades locais, de modo a garantir experiências educativas desafiadoras, contextualizadas e significativas a todos os estudantes, acompanhando, sobretudo, aqueles que enfrentam maiores dificuldades.

Uma escola cidadã é uma escola que dignifica, integra e emancipa, em vez de controlar, segregar e excluir. É uma escola onde se aprende como funciona a democracia, não apenas na teoria, mas, sobretudo, na prática do dia-a-dia. É uma escola que liberta, mais do que reprime. É uma escola que é para todos e, sobretudo, de todos.

Pedro Abrantes

Sociólogo e Professor Universitário

pedro.abrantes@uab.pt