Uma funcionária das finanças da Amadora foi detectada a consultar os dados fiscais do primeiro-ministro. Apanhada pelo sistema “Lista VIP”, explicou que consultou os dados a pedido do próprio. Sendo amiga do primeiro-ministro, este fez uma chamada e pediu-lhe. E o gabinete do primeiro-ministro não desmente tal facto, afirmando apenas que não há nada de irregular ou suspeito neste processo.

Na mesma semana em que soubemos do SMS de Paulo Portas a Passos Coelho, e do SMS de António Costa ao diretor-adjunto do Expresso, temas agora uma chamadinha que promete dar que falar. Até pode não ser ilegal ligar-se a um amigo e pedir informação sobre si a que este tem acesso profissional de forma privilegiada. Também não é com certeza crime que um ministro se demita por SMS. Ou que um putativo futuro primeiro-ministro exerça o seu direito de protesto a um jornalista via SMS.

Mas, embora tenham o seu quê de fait divers, estes episódios demonstram bem a cultura de informalidade que ainda subsiste em Portugal. Uma cultura, alimentada em primeira mão pelas elites políticas e económicas do país (como nos casos acima se demonstra), que culmina frequentemente em redes de influência e de pressão opacas e pouco saudáveis.

A Chamadinha e o SMSzinho fazem hoje parte do ecossistema da informalidade e são uma espécie de digitalização da palmadinha nas costas ou do “apertozinho” tão conhecido de outros tempos. Passaríamos bem melhor sem eles.

João Ricardo Vasconcelos

Polítólogo, Gestor de Projetos

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