Temos a agradecer a Thomas Piketty uma frase que fez manchete nos jornais: “A dívida de Portugal vai ser reestruturada. É tão simples quanto isso”. É como se Piketty quisesse por um elefante à frente dos olhos de quem nos quer convencer que é possível ignorar o elefante, isto é, pagar a dívida pública até o último cêntimo e mesmo assim recuperar a economia e criar emprego. Tem razão Piketty quando diz que mesmo que se tente continuar a cumprir as regras da UE para dar prioridade à dívida, o resultado final será ou uma reestruturação, ou o incumprimento. Não tem razão Piketty quando diz que é “tão simples como isso”.

Na realidade, não é nada simples. Para resolver a dívida antes que o incumprimento se imponha logo que os juros voltem a subir é preciso um governo mandatado para colocar o elefante no meio da sala de reuniões do Conselho Europeu. Um governo que não disponha desse mandato limitar-se-ia a tentar passar entre os pingos da chuva de braços caídos, desarmado face ao mais que previsível vendaval ou ao mais pequeno sopro dos ministros das finanças europeus.

As linhas programáticas aprovadas em janeiro pela candidatura cidadã LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR apontavam claramente para o elefante: “Para recuperar é preciso desendividar, não nos termos previstos no Tratado Orçamental, mas com uma reestruturação da dívida e o relançamento do investimento. É por isso crucial a inclusão na agenda europeia da reestruturação multilateral das dívidas e de um verdadeiro programa de investimento”.

Agora que estamos a construir o programa da candidatura, temos de ser ainda mais claros nesse ponto. Isso mesmo é o que faremos no debate “É Tempo de Resolver a Dívida” que no dia 14 de maio vai acontecer no Porto.

José Maria Castro Caldas

Economista